Sancionada em agosto e regulamentada em dezembro de 2010, a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), lei nº12.305, institui o princípio da responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos, o que abrange fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes, consumidores e titulares dos serviços públicos de limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos.
Embora só deva entrar em prática a partir de 2012, algumas empresas já têm aplicado a logística reversa, um dos principais pontos da PNRS, da qual o princípio da responsabildiade compartilhada faz parte. Uma dessas companhias é a multinacional Furukawa, especializada em cabeamento estruturado, que atua em boa parte do Brasil.
Com matriz em Curitiba, capital do Paraná, a empresa atua desde agosto de 2007 com o programa Green It, por meio do qual viabiliza o tratamento de resíduos de cabos e acessórios descartados pelas empresas clientes, de modo que tais materiais sejam reaproveitados por outras indústrias, evitando assim o descarte inadequado no meio ambiente, cada vez mais afetado em razão do acúmulo de lixo eletrônico.
Nesta entrevista ao portal EcoDesenvolvimento.org, o gerente de Planejamento de Mercado e Marketing da Furukawa, José Carlos Alcântara Júnior, dá detalhes sobre o programa Green It, e explica de que forma a empresa que ele representa tem contribuído com o desenvolvimento sustentável.
EcoD: Como funciona o programa Green It?
José Carlos Alcântara Júnior: É basicamente um programa de retorno de produtos antigos. Integram-no cabos de dados, cabos de energia e uma quantidade razoável de PVC, polietileno, chumbo, cobre e cádmio (metais pesados). Esses metais, quando são queimados ou descartados na natureza, causam uma severa agressão ao meio ambiente, levando muitos anos para se decompor.
Então, a ideia da Furukawa era pensar em como fazer, dentro desse mercado, com que esses produtos não fossem descartados, uma vez que a tecnologia vai evoluindo e, com o passar do tempo se faz necessária a substituição dos cabos.

Depois de separado na Furukawa, o cobre vira pó que pode ser usado como matéria-prima para outros produtos industriais/Foto: Divulgação
EcoD: E existe uma tecnologia específica para este fim na própria empresa?
José Carlos Alcântara Júnior: Nós já temos dentro da Furukawa uma unidade de reprocessamento de matéria-prima. Nós começamos recebendo cabos telefônicos das grandes operadoras (feitos de polietileno e cobre) e fazendo o tratamento desse material. Então, esse cabo recebido é considerado parte do pagamento dos cabos que nós estamos vendendo para a Telefônica e a Brasil Telecon, por exemplo, uma forma de permuta. Nós temos uma unidade interna e uma máquina que tritura e separa por peso de centrifugação o cobre dos demais materiais. Esse cobre sai na forma de pó, e esse cobre em pó é revendido para tratamento e pode ser transformado em outros tipos de insumo, como panelas, dispositivos eletrônicos e até ser misturado e voltar para a nossa própria indústria.
EcoD: PVC também.
José Carlos Alcântara Júnior: O polietileno era vendido para outro segmento de mercado, que trata a sucata também. O pensamento foi: por que eu não posso montar um sistema para que esse mesmo procedimento seja adotado pelo mercado enterprise, que tem vários cabos de dados (agora não mais telefonia), e que é ainda pior, porque tem o PVC na capa – tem muitos produtos químicos nos cabos de transmissão de dados.
EcoD: E como o programa é operacionalizado?
José Carlos Alcântara Júnior: Por meio da cadeia de integradores (profissionais que fazem grandes instalações) nossos, nós fazemos um acerto com o cliente, que retira o material. A Furukawa envia embalagens especiais, então esse material já sai do cliente devidamente embalado e retorna posteriormente à Furukawa. Aqui dentro nós fazemos o processamento de parte desse material, de forma a dar o encaminhamento que não cause danos ao meio ambiente. E esse material que retorna à fábrica eu bonifico, ou seja, esse mesmo integrador que trouxe o material, tem o peso dessa sucata valorizado. Ou seja, uma vez esse cabo retirado, eu retorno para esse integrador produtos da mais alta tecnologia. Então, eu estou trocando produtos de uma nova tecnologia que ele vai implantar por um produto velho, que estava instalado na rede e que descartado na natureza causaria danos ao meio ambiente. Tudo é acondicionado em embalagens especiais que são transportadas por empresas especializadas e entregues em outras empresas de reciclagem homologadas, que por fim transformam lixo em matéria prima para outras indústrias.

EcoD: São as empresas que procuram a Furukawa?
José Carlos Alcântara Júnior: A Furukawa divulga o programa em seu site, na mídia, nas revistas especializadas. Nós temos uma rede de 147 integradores que cobrem todo o Brasil, que são a linha de frente. Eles apresentam ao cliente final a possibilidade de fazer essa substituição. Com eles, o cliente final percebe que pode dar um melhor tratamento para o produto, além de economizar na quantidade de materiais armazenados em depósitos. O integrador dá uma mensagem clara ao mercado sobre a relação da cadeia com o meio ambiente. Nós o chamamos de um programa de responsabilidade compartilhada. Passa pela responsabilidade da Furukawa, pelo distribuidor da Furukawa, que vende este produto para o integrador, que nos auxilia com a logística e que está no dia-a-dia no escritório com o cliente, e com o próprio cliente no processo.
EcoD: O senhor pode detalhar a importância do integrador e como ele atua nesse processo?
José Carlos Alcântara Júnior: A cadeia de fornecimento do nosso produto nesse segmento (cabos, acessórios e soluções para cabeamento estruturado) conta com 28 postos de distribuição em todo o Brasil. Você está construindo uma nova casa ou montando um escritório e precisa instalar uma rede de computadores. O que você vai fazer? Buscar um projetista. Aí o projetista vai contratar o instalador ou o integrador. O integrador é o instalador de grandes projetos ou redes.
Dentro do contrato do instalador com a empresa, a responsabilidade dele é instalar o novo produto. Aí ele tem que tirar o que está ali dentro. Para o cliente final, o principal aporte é a participação dele no programa que dá tratamento aos cabos, porque muitas vezes ele tem que contratar uma empresa para retirar aquele monte de entulho (cabo velho) e nem sabe aonde vai parar aquilo. Então, o integrador oferece esse serviço opcional. Para o integrador que está colocando esses cabos, retirando-os e colocando-os nos prédios em embalagens especiais, na hora que ele coloca dentro das sacolas, ele pesa esse produto. Então deu lá tantos mil quilos de cabos conectores que eles tiram de dentro da rede antiga. Esses quilos eu valorizo em um programa de garantia. Por exemplo, para cada quilo desse material que ele retirou, vamos colocar R$ 10. Esses R$ 10 se ele vende lá, tantos mil quilos, vai dar um determinado valor, esse valor é o que eu uso e desconto no produto que ele vai comprar. Aí o que o integrador vai fazer? Bom, eu retirei dois quilômetros de cabo e preciso comprar dois quilômetros de cabo. Eles custam R$ 1.000.000. Eu retiro R$ 300 que ele me mandou em sucata. Então, ele não precisa me pagar R$ 1.000.000, mas apenas R$ 700.
EcoD: É uma espécie de estímulo para o cliente participar do projeto?
José Carlos Alcântara Júnior: Estamos valorizando esses produtos que seriam descartados no meio ambiente. Nós chamamos isso de bonificação, ou seja, o produto que o instalador vai comprar da Furukawa para instalar a nova rede, eu bonifico. Em vez de ele me pagar com dinheiro, ele está me pagando com resíduos. Eu pego esse resíduo, trato e vendo.
Se o meu produto chega até um integrador que está montando uma rede em Manaus, por exemplo, e o meu produto entrou num barco, subiu o Rio Amazonas para chegar a alguma empresa que está instalando uma unidade industrial em algum lugar, essa mesma logística que levou o produto pode fazer o descarte. A única diferença é que a Furukawa, quando vende um produto para o distribuidor, ele mesmo faz a logística e entrega para o instalador, que por sua vez faz à logística e entrega para o cliente. O processo de retorno do material à Furukawa é feito pela própria Furukawa, para não gerar despesa para a cadeia – o programa é montado para que os clientes não tenham esse custo adicional.
EcoD: A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), sancionada e regulamentada em 2010, estabelece o princípio da responsabilidade compartilhada para a indústria. No caso da Furukawa, a adaptação não será um problema, não é mesmo?
José Carlos Alcântara Júnior: A Furukawa se antecipou a PNRS. Desde 2002, os cabos ópticos e de telefonia usam bobina de madeira. Hoje, mais de 85% delas contam com madeira reaproveitável. Ou seja, eu forneço meu cabo dentro de um compartimento de madeira, que vai até o cliente, e o meu caminhão traz esses compartimentos vazios. Eles são reaproveitados. Eu desmonto, trato a madeira e monto as novas bobinas, que vão de novo para os clientes. São árvores que estão deixando de ser cortadas.
EcoD: Qual é o grande desafio da empresa hoje em relação ao programa?
José Carlos Alcântara Júnior: A divulgação, o entendimento. Nós estamos o tempo todo mandando folhetos, colocando informações no site, colocando nosso call-center para fazer marketing, informando o mercado para que ele fique ciente desse programa. E sempre motivando os integradores também. Porque este não é um produto que se vende. É um produto que se apresenta. Nós já estamos apresentando este programa em outros países, em competições mundiais dentro da própria empresa, que atua em todo o mundo.
EcoD: Além do Green It, existe outra iniciativa da Furukawa no âmbito do desenvolvimento sustentável?
José Carlos Alcântara Júnior: Temos um programa importante de responsabilidade social, chamado "Projeto Empresa-Escola: Formando Crianças para o Futuro". Aqui perto de nossa fábrica, em Curitiba, existem comunidades socialmente vulneráveis [Terra Santa e Vila Laguna]. Essa iniciativa da empresa busca dar educação, recreação, trabalho para os jovens. Dentro da área fabril nossa, nós temos salas de computação, onde as crianças passam meio período do dia. Alguns dos nossos funcionários, que hoje tem 18, 19 anos, entraram no programa com 10, 11. Este programa foi apresentado em uma dessas competições internacionais no âmbito da Furukawa e nos sagramos campeões. O nosso lucro não vem só de compra e venda. Vem muito de fazer parte da sociedade, participar dela.
Atualmente, a Furukawa conta com dois aprendizes do Ensino Técnico do Senai e cinco aprendizes administrativos que já participaram durante quatro anos do programa de responsabilidade social da Furukawa. De 2008 a 2010, 30 adolescentes foram encaminhados para o programa de aprendizes e foram contratados por grandes empresas.
Em 2011, dez adolescentes iniciaram no programa de aprendizagem do Instituto Salesiano de Assistência Social.

